Olá Pessoal,
Acabo de ler um texto muito interessante escrito por um grande amigo meu (Elton Dias).
Segue abaixo o texto na íntegra.
Dívidas
Você nasce.
E a partir daí sua vida é uma coleção infinita de dívidas.
Não tem como escapar.
Ainda nenê, você aprende que será cobrado por cada passo.
As primeiras “dívidas” que você adquire são:
- ele ainda não aprendeu a falar?
- ele engatinha, mas ainda não anda?
Então você se esforça, aprende a repetir os sons que seus semelhantes fazem.
Aprende a se equilibrar nas duas patas traseiras.
E quando isso acontece, quando uma dívida é paga, sempre há uma festa.
As festas vão sendo feitas de formas diferentes ao longo da vida.
A primeira festa é dita numa única palavra: “NASCEU!”.
Você pagou a dívida inicial de estar dentro de uma fêmea.
As festas seguintes são: “Ele disse ma-má!”; “Ele deu dois passos hoje!”.
E são sempre as mesmas festas sendo comemoradas, geração após geração, como se houvesse alguma novidade nisso tudo.
É claro que tudo isso acontece por causa da Festa Zero, a Festa Primordial:
- ahhhhhhh, gozei!
O que você descobre com o tempo, é que a vida não é feita só de festas, mas sim de cobranças.
Não importa sua idade, seu sexo, sua religião. Você que está lendo isto agora, você está endividado!
Então, quando você tem uns cinco anos de idade, tem botam numa escola.
A época das festas acabou. E você logo descobre que a época do colégio é uma época de longas e repetitivas cobranças.
Seus pais, seus tios, a mãe do outro coleguinha, todos sempre tem (por algum motivo) que ajudar a te cobrar, “porque sozinho ninguém se cobra” é o que dizem.
- você está estudando?
- suas notas estão boas?
- passou de ano?
- fez o dever de casa?
Só há festa, ano após ano, se todas essas cobranças forem pagas na carteirinha escolar, no final do ano, em forma de passaporte para o ano seguinte.
Como a época do colégio é longa, os últimos anos dessa fase são sempre mal-cobrados.
Você já ouviu essas perguntas tantas vezes que fica imune a elas. Seus cobradores sabem disso, e se concentram em cobrar outras coisas. Ou se concentram em pagar as próprias dívidas.
Falando em cobrar outras coisas, no final do colégio já começam a te endividar denovo.
- está fazendo algum outro curso?
- Inglês? Informática? Caratê? Catequese?
- está procurando algum serviço?
Sem contar no velho “o que você vai ser quando crescer?”.
Você tem que dar um jeito de escolher, amigo.
Então, você consegue. Você termina o colégio, termina o Ensino Médio.
E faz uma análise do que pode te dar mais dinheiro no futuro para escolher que faculdade fazer.
Alguns dizem pra você escolher algo que goste, mas isso é tudo besteira. Senão as pessoas se formariam em fazer sexo, comer, dormir e ver tv.
Você entra na faculdade e arruma um emprego pra ajudar a pagar.
Mas isso não diminui suas dívidas.
- como está no serviço?
- cabulou aula hoje?
- não seria bom mudar não?
Isso sem falar nos relacionamentos.
Se você tiver namorada, suas dívidas são:
- mas já ta namorando? É tão novinho!
- se cuida heim! Sabe usar um preservativo?
E, se você não tiver namorada, a sua dívida é justamente o que você não tem.
Cobrar é uma arte que não tem hora nem lugar para acontecer.
Você pode estar visitando sua avó, quando derepente:
- e a namorada?
Ou então pode estar fazendo compras na quitanda, quando acontece:
- você está por dentro do que tá rolando no mercado de trabalho?
Ou ainda, pode estar num funeral de um parente distante quando um primo desconhecido te pergunta:
- por que você não visitou ele antes?
Digamos que você é um cara exemplar, você cumpre com suas dívidas.
Você termina a faculdade, tem um bom emprego e uma bela namorada.
A namorada em questão tem que ser bela, porque essa é a cobrança do seu inconsciente.
Você não pode simplesmente sossegar. Você já está endividado!
- vocês não vão noivar?
- você não vai fazer uma pós?
- que tal abrir um negócio próprio?
Então lá vai você denovo correr atrás do prejuízo.
Você fica noivo, estuda mais um pouco, melhora sua condição no trabalho.
Mas é inevitável, essa é até fácil de adivinhar:
- quando vocês vão casar?
Vocês se casam.
Antes que alguém pergunte o que a noiva vai vestir, ela aparece de branco com uma cauda longa arrastando no chão. Algo super original para todos aqueles preocupados apenas em cobrar e pagar.
Quanto a casar, é bom não deixar essa cobrança se estender por muito tempo, senão vão te cobrar sobre o porque de você morar ainda com seus pais.
E sobre a festa do casamento. Essa você tem que planejar antes e pagar. Não é tão simples como dizer “ma-má!”.
Agora você é um adulto.
Você está casado. Tem sua casa (que pode ser alugada), tem um carro e um emprego.
É quando inocentemente lhe perguntam:
- vocês não querem ter filhos?
- quando você vai me dar um netinho?
Ok, você diz. Vamos cancelar aquela viagem nas férias. Vamos comprar fraldas!
O neto é uma felicidade diferente para os avós. Agora eles vão poder cobrar tudo aquilo que cobraram de você denovo, mas sem ter a sua responsabilidade. Eles até esquecem das próprias dívidas.
Ser pai e ser mãe é uma grande festa. É um título honorário permanente.
Mas você não tem trégua. É uma reação em cadeia.
- vocês não vão dar um irmãozinho pra ele?
- um só é muito pouco!
É, como se quase sete bilhões de pessoas no mundo já não fosse o suficiente.
A vida passa muito depressa e você tem que se concentrar em estar sempre pagando, porque dívida é o que não falta.
Deixar de pagar uma dívida então é muito pior.
Os juros correm soltos e você acaba se encontrando dentro de uma bola de neve.
A vida passa tão depressa que grande parte das dívidas passam e você nem se dá conta.
- hoje é o seu dia de lavar a louça!
- já comprou o uniforme dos meninos?
- por que você não vem me visitar?
- cadê aquele relatório que eu te pedi?
- você não lembra que dia é hoje?
- por que você não compra um tênis de marca?
- você não vai à festa?
- na calça não, eu já falei pra você pedir, não falei?
- põe o meu nome no trabalho aí?
- você pode me emprestar?
- hey, você é surdo?
Se você for diferente do padrão então, você tem dívidas extras.
Se for gay:
- você é gay?
Se for preto:
- quando não caga na entrada, caga na saída!
Se for ateu:
- pra que você vive então?
Se for branco que foi assaltado três vezes, e as três vezes o filho-da-puta era preto:
- você é racista!
Se for dedicado aos estudos:
- olha lá o nérdão vindo aí.
Então, você se aposenta. A grande dívida do trabalho termina.
Você não precisa mais estudar, mesmo porque você não consegue entender nada que já não conheça. Você não precisa se relacionar também.
Você vai ficando velho, e pouco a pouco todos vão se afastando.
Isso é um acontecimento natural. As pessoas querem ver pessoas que elas possam cobrar de alguma coisa. E você é apenas um coitado.
Fazer qualquer tipo de reflexão sobre tudo isso é besteira.
As pessoas vão falar que você está bitolado e vão fazer piadas sobre sexo para serem mais aceitas.
Se você quer conversar com as pessoas aí vai dica, cobre elas de alguma coisa e deixe ser cobrado também, afinal é pra isso que estamos aqui.
Agora você se encontra velho, viúvo e morando num asilo.
A casa que era sua agora é do seu filho, da sua nora e dos pentelhos dos seus netos.
Você quase não vê ninguém de fora. Quase ninguém te visita.
Quando os netos dos outros velhos vêm, eles ficam muito felizes. É a felicidade de ver os seus genes progredindo através das gerações. É a felicidade de ser normal, de ser comum.
Você já não agüenta mais essa vida, essa dívida, essa dí-vida!
Nada disso teria acontecido se a porra da Festa Zero também não tivesse acontecido.
Mas o que fazer, há festas zeros em todo lugar, e elas são apenas o pagamento de alguma dívida. É a cobrança do instinto, da mãe-natureza.
Então você pensa positivamente. Você olha pra você mesmo e diz:
- Agora não tenho mais dívidas!
Vou aproveitar estes últimos anos sem me preocupar em pagar cobrança alguma.
É quando seu filho e netos vem te visitar.
E você sente que eles estão com pressa, eles olham para o relógio o tempo todo.
O mais novo pede pro pai que quer ir embora.
Ninguém te diz nada, mas também não precisa. Você sente.
Você sente o peso da última dívida em cada olhar deles:
- você não vai morrer?
(elton dias)